O fundo mais bem-sucedido da história é fechado. Ninguém de fora consegue investir nele, e é assim desde 1993.

Ele se chama Medallion e pertence à Renaissance Technologies, uma gestora fundada por um matemático, Jim Simons, que antes de ir para o mercado quebrava códigos para o governo americano e dirigia o departamento de matemática de uma universidade. A história está no livro O Homem que Decifrou o Mercado, de Gregory Zuckerman, e vale a leitura inteira.

Nem sempre foi fechado. Lá atrás ele abria janela para receber dinheiro. Segundo o levantamento de Zuckerman, quem entrou e ficou teve, de 1988 a 2018, cerca de 39% ao ano, em dólar, já líquido das taxas, que eram as mais altas da indústria. Por trinta anos. Quem saiu no meio não voltou, porque em 1993 a porta fechou para quem não era da casa, e em 2005 fechou também para os últimos investidores externos que ainda estavam dentro. Quem hesitou perdeu a balsa. E ela não passou de novo.

Eu cito o número com um cuidado. Ele é o resultado de um fundo específico, de terceiros, encerrado para o público, e não diz nada sobre o que "quant" rende em geral. A maioria dos fundos quantitativos do mundo não chega perto disso, e alguns quebraram, como você vai ver mais abaixo. O que interessa aqui é como esse fundo funciona e o que ele diz sobre o jogo lá fora.

O que é um fundo quantitativo

Um fundo tradicional tem um gestor que forma opinião: acha que uma empresa está barata, que o juro vai cair, que um setor vai bem. A decisão sai da cabeça de alguém.

Um fundo quantitativo inverte isso. A decisão sai de um modelo, que foi construído e testado em cima de dados históricos, e que opera sozinho, dentro de regras. O ser humano trabalha antes: pesquisa, testa, descarta, mede. Na hora da operação ele não está na sala.

Isso tem algumas consequências práticas:

  • Toda ideia é testável antes de custar dinheiro. Se você tem uma hipótese, você roda ela no histórico e vê o que aconteceu. A maior parte morre nessa etapa, o que é bom, porque morreu de graça.
  • O modelo não tem memória seletiva. Ele não lembra só dos acertos, como a gente viu no texto anterior. Ele conta tudo.
  • O modelo não tem medo nem euforia. Ele não vende no fundo porque a tela está vermelha e não dobra a posição porque acertou três seguidas.

A Renaissance levou isso ao extremo. Contratava físicos, astrônomos, especialistas em reconhecimento de voz. Quase ninguém com formação em finanças. Um dos pesquisadores mais importantes da casa, Robert Mercer, veio da IBM, onde trabalhava com tradução automática de idiomas. A lógica era: o mercado é um sinal ruidoso, e quem sabe extrair sinal de ruído sabe fazer isso em qualquer domínio.

Quant também quebra, e é bom saber disso

Antes de continuar, o contraponto, porque sem ele o texto vira propaganda.

Em 1998, o Long-Term Capital Management, um fundo comandado por dois futuros ganhadores do Nobel de economia e por um dos operadores mais respeitados de Wall Street, perdeu a maior parte do capital em poucos meses e precisou ser resgatado por um consórcio de bancos organizado pelo Federal Reserve de Nova York. Os modelos deles eram sofisticados. O problema era o tamanho: a alavancagem era tão grande que uma sequência de movimentos improváveis, mas possíveis, foi suficiente para destruir tudo.

Em agosto de 2007, vários fundos quantitativos de ações perderam muito dinheiro em poucos dias, num episódio que ficou conhecido como "quant quake". Eles não tinham nada errado nos modelos. Tinham modelos parecidos demais uns com os outros, e quando um precisou vender, todos precisaram, ao mesmo tempo.

Método não é garantia. Método é a única forma de saber, com honestidade, o que você está fazendo. E de perceber quando parou de funcionar, antes que o dinheiro acabe. Isso vai ser assunto de um texto inteiro mais para a frente.

O tamanho disso lá fora

Agora os números, com fonte.

Nos Estados Unidos, o dinheiro sistemático já é o dinheiro grande. Segundo a Goldman Sachs Prime Services, que acompanha a indústria de hedge funds a partir da própria base de clientes, entraram 78 bilhões de dólares novos na indústria em 2025, e os fundos quantitativos ficaram com mais de setenta por cento disso. Foi o segundo ano seguido em que eles lideraram a captação com folga. E na pesquisa com alocadores para 2026, estratégia quantitativa foi a categoria mais procurada.

E a maior formadora de mercado americana, a Citadel Securities, que no fundo é uma empresa de algoritmos, informa no próprio site institucional que executa perto de um quarto de todo o volume de ações negociado nos Estados Unidos. Uma empresa só, com cerca de 1.800 funcionários.

Some a isso o que a gente já sabe sobre negociação de alta frequência: há mais de uma década, a maior parte do volume de ações nos Estados Unidos é gerada por algoritmos, e não por pessoas clicando. Os números variam por fonte e por ano, mas nenhuma estimativa séria coloca isso abaixo de metade.

Ou seja: lá, quem opera com método é quem move o mercado. Não é o cara do canto com o computador ligado. É o centro.

E por que ninguém fala disso aqui

No Brasil quase ninguém sabe que isso existe. A conversa pública sobre investimento ainda é "qual ação vai subir", "o que você acha do dólar", "esse fundo é bom".

Parte disso é cultural. Parte é que o mercado brasileiro é muito menor, e mercado pequeno muda tudo o que funciona (esse é o próximo texto). E parte é que quant é um trabalho chato de explicar: não tem tese, não tem história de empresa, não tem convicção para vender. Tem uma pergunta, um teste e um resultado.

Mas tem uma coisa que vale a pena entender, mesmo que você nunca vá investir num fundo quantitativo: a forma de pensar dele é a forma de pensar certa para avaliar qualquer investimento. Antes de colocar dinheiro numa ideia, você pergunta o que aconteceria se ela tivesse sido aplicada no passado. Você conta tudo, não só o que lembra. Você olha o caminho, não só o ponto de chegada. E você desconfia de qualquer número que não vem acompanhado de como foi medido.

É isso que eu quero ensinar aqui. Não como montar um fundo. Como fazer as perguntas que um fundo desses faz.


Referências

  • Zuckerman, G. (2019). The Man Who Solved the Market: How Jim Simons Launched the Quant Revolution. Portfolio/Penguin. Edição brasileira: O Homem que Decifrou o Mercado, Intrínseca.
  • Lowenstein, R. (2000). When Genius Failed: The Rise and Fall of Long-Term Capital Management. Random House.
  • Khandani, A. E. e Lo, A. W. (2007). What Happened to the Quants in August 2007? Journal of Investment Management, 5(4), 29–78.
  • Goldman Sachs, "Hedge Funds Have Momentum After Posting Double-Digit Returns Last Year", Goldman Sachs Insights, janeiro de 2026, sobre dados da Goldman Sachs Prime Services (US$ 78 bi de captação líquida em 2025, mais de 70% para fundos quantitativos). Relatório de origem: "2026 Hedge Fund Industry Outlook: Generation Alpha", 29/01/2026.
  • Citadel Securities, site institucional, "Productivity versus Workslop", 04/11/2025: "executes nearly a quarter of U.S. equity volumes, with just 1,800 professionals".
  • Retorno do Medallion (cerca de 39% a.a. líquido, 1988–2018) e fechamento a investidores externos (1993; saída dos últimos externos em 2005): Zuckerman (2019), apêndice e capítulos finais.